sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Como nosso cérebro resolve quebra-cabeças

Como nosso cérebro resolve quebra-cabeçasQuem não gosta de quebra-cabeças? Toda vez que resolvemos um quebra-cabeças, como forma de recompensa nosso cérebro libera uma substância chamada dopamina, o que nos dá um imenso prazer. Pesquisas recentes sugerem que, além dessa recompensa, a simples ideia de resolver um quebra-cabeça geralmente coloca nosso cérebro num estado receptivo e lúdico que, por si só, já nos proporciona uma fuga prazerosa.

Quando resolvemos um problema, utilizamos basicamente dois processos, um analítico e outro intuitivo. A resolução de problemas pelo processo analítico requer o uso da inferência e da tentativa e erro, enquanto o processo intuitivo está mais associado à famosa “sacada”. Pesquisadores acreditam que esses dois processos não utilizam necessariamente as mesmas habilidades cerebrais, porém a solução criativa de problemas geralmente requer tanto análise quanto intuição, fazendo com que nosso cérebro alterne entre esses dois estados mentais até encontrarmos a solução.

Esse estado criativo em que a análise e intuição trabalham juntas utilizando todos os modos de pensamento gerou uma teoria chamada de memória inteligente. Este conceito é polêmico, pois acaba com a ideia de que um hemisfério do cérebro está mais associado à criatividade e até levou a outro conceito que questiona a prática do famoso brainstorming.

Estudos de neuroimagem avaliaram o que acontece no cérebro de pessoas se preparando para resolver um quebra-cabeças. Resultados sugerem que uma certa “assinatura” na atividade preparatória, que está fortemente correlacionada ao bom humor, pode ser observada no cérebro de pessoas mais propensas a resolverem quebra-cabeças utilizando a intuição instantânea do que a tentativa e erro. Essa assinatura inclui a ativação de uma área do cérebro que fica ativa quando a pessoa expande ou estreita sua atenção. Nesse caso de solução pelo processo intuitivo, os pesquisadores acreditam que o cérebro expande sua atenção, tornando-se mais aberto a distrações e a conexões nervosas mais fracas.

Para avaliar a influência do humor sobre a forma de se resolver quebra-cabeças, os pesquisadores fizeram com que pessoas assistissem a um vídeo antes. As pessoas que assistiram a um vídeo de comédia resolveram mais quebra-cabeças no geral, e significativamente mais pelo processo intuitivo, quando comparados às que assistiram a vídeos assustadores ou chatos.

A ideia de que o bom humor contribui para uma melhor solução criativa de problemas está presente em diversos estudos, inclusive um que o relaciona com a capacidade de notar mais detalhes visuais. A implicação é que um bom humor nos induz a um estado atencional mais amplo e difuso, que nos permite a enxergar e perceber mais, além de pensar de maneira mais ampla. E essa mesma técnica utilizada para resolvermos quebra-cabeças poderia ser, guardadas as devidas proporções, aplicada na resolução de problemas na vida real.

O problema é que nem sempre a intuição necessária para a solução de problemas de maneira criativa aparece no momento que mais precisamos. Segundo o autor de um conceito chamado de intuição estratégica, nossas melhores ideias surgem quando menos esperamos. É uma intuição diferente da intuição comum, aquela mais parecida com um sentimento vago, pois se trata de um pensamento claro. Também difere da intuição especializada, aquela relacionada com julgamentos instantâneos associados a padrões familiares, pois é lenta. A intuição estratégica é aquela que lhe fornece uma ideia clara para uma ação e que pode ficar “cozinhando” na sua cabeça por um bom tempo até emergir, justamente o que não acontece numa sessão de brainstorming.

Para os que não estão familiarizados com o termo, brainstorming é um processo colaborativo de geração de ideias em que vários participantes contribuem livremente com ideias para resolver um problema específico. A crítica do autor a essa prática é que ela não proporciona um momento calmo e contemplativo que precede a intuição estratégica, ou o lampejo criativo.

Já o conceito da memória inteligente refere-se à habilidade de juntar os vários pedaços da nossa memória num pensamento consistente e criativo. Ela é composta de três elementos: pedaços de memória (experiências, informações e conhecimento); as conexões entre esses pedaços; e o processo mental característico que mistura e combina os pedaços e conexões, criando um pensamento mais sofisticado. Segundo os autores do conceito, essa é uma habilidade que pode ser desenvolvida em qualquer momento da vida. O processo basicamente passa por aumentar a capacidade da memória de trabalho, da memória de longo prazo e da atenção, desenvolver técnicas para enxergar melhor as conexões entre essas informações e aprender a relacioná-las de maneira inteligente para se obter soluções criativas.

Esses conceitos já são utilizados por empresas para orientar o método de geração de soluções criativas em grupo. Começa por um processo de análise e discussão conjunta do problema a ser resolvido, seguido pela dispersão do grupo para que cada participante tenha a oportunidade de ter uma intuição estratégica e volte com uma boa ideia. Depois, o grupo se reúne novamente para avaliar as ideias e aperfeiçoar a melhor delas. Desta forma, o método contempla tanto os processos intuitivos quanto os analíticos da criatividade. E se isso tudo for feito com bom humor, os resultados tendem a ser até melhores.

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